Animais em vegetação queimada na Chapada dos Veadeiros (Foto: Facebook Rede Contra o Fogo)
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A fauna silvestre é a principal vítima do incêndio que se alastra há quase duas semanas sem controle pela região do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, no interior de Goiás. O início de uma recuperação deve levar pelo menos dois anos.

As maiores ameaças aos animais adultos não são as chamas, que já consumiram 65 mil hectares de seu habitat –o parque tem 240 mil ha.

São, por um lado, a destruição de ninhos ou a morte de filhotes, já que a primavera é a estação reprodutiva de boa parte das espécies do bioma –o que deve afetar a população de espécies vulneráveis.

Por outro, os atropelamentos em rodovias próximas aos estragos, que podem ocorrer quando os animais, desorientados ou em busca de comida e água, atravessam a pista.

"Menina, quase que eu atropelo um tamanduá-bandeira", disse à reportagem o funcionário de uma pousada do Vale Verde que ajudava a apagar um foco de incêndio na última quinta-feira (26).

Porém, segundo o chefe do parque, Fernando Tatagiba, do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), a maior parte do impacto só poderá ser avaliada após a extinção do fogo.

"Pela extensão do incêndio, acredito que tivemos muitas perdas, mas ainda não é possível saber o tamanho", completa Gerson Norberto, diretor do Zoológico de Brasília.

É que durante o incêndio, animais de grande porte (como lobos-guará, veados-catingueiros ou onças) e aves (como a arara-canindé e os tucanos) fogem do fogo, que se alastra lentamente.

Por isso, alertam ativistas, as fotos que circulam nas redes sociais mostrando carcaças carbonizadas devem ser vistas com desconfiança.

"Aquilo tudo é imagem de incêndio em outros lugares, como Portugal ou Austrália", afirma Sita Beatriz, que coordena o grupo de voluntários da Rede Contra o Fogo responsável pelo atendimento emergencial à fauna em Alto Paraíso de Goiás (GO).

Ela, que não tem formação em biologia, é uma das 62 voluntárias que foram capacitadas por equipes enviadas pelo zoológico de Brasília para ajudar no que virá a seguir.

"O maior problema vai ser no pós-fogo", afirma Gerson, que ajuda a montar pontos de apoio em Alto Paraíso e Cavalcante (GO), os municípios mais atingidos. Um dos grupos voluntários é o Veterinários na Estrada, que viajou de Minas Gerais para combater o incêndio.

POSTO DE APOIO

Foi para o posto de Alto Paraíso de Goiás, a 243 km de Brasília, que foi levado o primeiro animal encontrado ferido diretamente pelo fogo.

Um grupo de brigadistas ajudava a apagar o incêndio perto do Vale da Lua, um dos principais pontos turísticos, quando ouviu os gritos de uma arara-canindé.

O filhote, de oito meses, estava preso no tronco de um buriti em chamas. Foi resgatado com penas chamuscadas na cabeça e nas asas. Ainda não consegue voar, mas passa bem, e deve ser reintroduzida em breve à natureza.

Enquanto a reportagem visitava a base, na manhã da última sexta-feira (27), Sita chegou trazendo mais um animal, um tatu retirado também do Vale da Lua. Ele havia sido "resgatado" por um motorista que passava pela região, mas não estava ferido, e logo os veterinários determinaram que fosse solto na natureza novamente.

"Não é para retirar animais saudáveis da natureza", diz o veterinário Márcio Bicalho. Segundo ele, pessoas que queiram ajudar devem chamar as equipes da cidade ou do ICMBio e só resgatar animais moribundos. No caso de atropelamentos, o ideal é ter o mínimo de contato com o animal, mas tentar levá-lo para o acostamento.

INCÊNDIO

O maior incêndio da história na região, que já consumiu 27% do parque nacional, e que o ICMBio afirma ser criminoso, acontece em meio a polêmica sobre a ampliação da área de preservação.

Em 5 de junho de 2017, o presidente Michel Temer assinou decreto que ampliou o parque de 65 mil para 240 mil hectares –em sua criação, em 1961, a área de conservação atingia 625 mil hectares.

Comemorado por ambientalistas, o decreto de ampliação reacendeu uma briga antiga com os proprietários de terra da região, muitos dos quais não possuíam títulos dos terrenos e, portanto, não receberam indenização pela desapropriação.

Foi o que aconteceu com a fazenda da família de Jair Barbosa Júnior. Ele diz que a propriedade de 1.370 hectares estava na fase final de titulação quando veio o decreto.

Os proprietários planejam entrar com uma ação coletiva, organizada pelo Sindicato Rural, para questionar o decreto de ampliação e a celeridade do processo.

"Ninguém quer impedir a ampliação do parque, mas a gente foi levado a acreditar que teria tempo para regularizar", diz ele, herdeiro de uma família tradicional da região, que ocupa o terreno, diz, há quase cem anos.

Do outro lado, ambientalistas locais reclamam da fusão entre as secretarias de Meio Ambiente e Agricultura na prefeitura da cidade, formalizada na última segunda-feira (23) , em votação na Câmara Municipal e denunciam suposta ação incendiária coordenada.

A previsão do ICMBio é de que as chamas sejam controladas durante este final de semana. "Mas o fim do fogo mesmo deve vir só com a chuva", diz Tatagiba, o chefe do parque.

(FOLHA PRESS)

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