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Colunista

Vassil Oliveira

 

Henrique Meirelles pré-candidato a presidente da República pelo PSD embaralha a disputa para o governo de Goiás. Independente de ser ou não candidato, o que só será definido ano que vem, os efeitos do anúncio (ainda que ele negue de público) serão inevitavelmente sentidos agora, na arrumação do jogo.

No Estado, o PSD faz parte da base do governador Marconi Perillo (PSDB). Mas não está firme. O presidente do partido, Vilmar Rocha, é secretário do tucano (Meio Ambiente etc.), porém não garante apoio ao candidato dele no ano que vem, o também tucano José Eliton, vice que assumirá o governo em abril já em busca da reeleição, segundo o próprio governador.

Nos últimos meses, Vilmar admitiu até lançar candidato a governador pelo PSD. O que ele realmente quer: ser candidato a senador. Como não vê lugar certo na base, que tem Marconi como nome garantido para uma das duas vagas, ele faz onda, balançando as especulações. Um interlocutor frequente dele, por exemplo, tem sido o presidente do PMDB e pré-candidato a governador, deputado federal Daniel Vilela.

Pode-se dizer que Daniel sai beneficiado com a entrada de Meirelles, ministro de Temer, que é do seu partido, na mesa de negociações. Ter o PSD como possível aliado do PMDB para a construção de aliança eleitoral em Goiás lhe dá perspectiva real de candidatura, justo o que ele precisa neste momento para se contrapor ao senador Ronaldo Caiado (DEM) dentro da oposição. Pré-candidato a governador, Caiado tem jogado duro para ser o cabeça de chapa.

Daniel com perspectiva significa Caiado mais isolado, enfraquecido, embora seja o nome à frente nas pesquisas. Pesa contra o democrata: não apoia Temer, é adversário conhecido de Vilmar Rocha (o que dificulta o diálogo com o PSD) e comanda um partido que fica menor com o tempo, em virtude do avanço do governo sobre suas lideranças no interior.

Além disso, Caiado tem dito ainda que que só disputará o governo se tiver o apoio do PMDB. Com essa possibilidade não se confirmando, como ele construirá uma aliança competitiva capaz de enfrentar as duas forças políticas tradicionais do Estado?

À parte o PMDB, hoje ele mantém diálogo aberto com a senadora Lúcia Vânia (PSB) para possível formação de chapa conjunta, o que amplia horizontes sobre sua postulação. Mas Lúcia escolheria ficar com ele, podendo em tese permanecer na base aliada – sem Vilmar disputando a outra vaga de candidato a senador, fica mais fácil ela garantir espaço para a reeleição – ou se juntar à oposição?

Lúcia conversa Caiado, porém mantém laços com Marconi Perillo e, semana passada, estava com o prefeito de Goiânia, peemedebista Iris Rezende, com quem fez questão de publicar foto que deu o que falar. Todos sabem: dar o que falar é moeda de troca comum nas articulações de bastidores.

Ficando na base, Lúcia garante PSB e PPS – comandado pelo seu sobrinho, deputado federal Marcos Abrão – ao lado de José Eliton. Resolve o dilema relativo a Vilmar e atinge o seu objetivo para tentar a reeleição. Equação perfeita.

Claro, pode acontecer outra coisa: Vilmar usar o seu novo capital político, que é Henrique Meirelles, para negociar a vaga de candidato a senador ao lado de Marconi. Nessa hipótese, sobraria exatamente ela, Lúcia Vânia.

Nenhum problema: sem Vilmar na curva, a Lúcia ficaria escancarada a opção PMDB de Iris e Daniel, que perderia o PSD, mas passaria a contar com PSB e PPS. Obras públicas e notórias da engenharia política, com o engenheiro Henrique Meirelles no centro das negociações.

Estas são apenas algumas possibilidades que se abrem com a pré-candidatura do ministro da Economia. Há mais. E muitas outras ponderações paralelas: e se PSDB também tiver candidato a presidente? E se o PMDB resolver lançar um nome seu contra Meirelles? E se as coisas derem erradas para o ministro? E se Temer não gostar e reagir?

E se Daniel e Caiado não se entenderem, como Caiado e Lúcia Vânia não se entenderam em 1994 e acabaram derrotados por Maguito Vilela, o ex-governador pai de Daniel? O que fará Caiado, caso tenha que decidir entre abandonar a candidatura ou lançar-se sozinho?

O que fará Marconi Perillo diante da volta de Meirelles ao cenário político no Estado? Investirá na reaproximação, mesmo os tucanos se organizando para lançar candidato a presidente? Partirá para o confronto local, para não dividir holofotes como liderança nacional, ou para se firmar como presidente do PSDB?

E o PTB, de Jovair Arantes, que tem um pé no Estado e outro na prefeitura de Goiânia, como ficará? E o PP do senador Wilder Morais, que tenta, como Lúcia e Vilmar, a vaga casada em Marconi? E José Eliton, como se posicionará diante da ameaça de diminuição da base governista, uma possível divisão das forças que vêm elegendo e reelegendo Marconi nos últimos anos?

Nos anos em que o nome de Henrique Meirelles permaneceu como perspectiva de poder em Goiás – pré-candidato a governador em potencial –, nenhuma articulação política no Estado andava sem ele. Mesmo não sendo candidato, ele interferiu no andamento do jogo.

Deputados, prefeitos e vereadores foram eleitos em cima de seu nome; grupos foram formados e desmanchados segundo a sua boa vontade em colaborar. Para mais ou para menos, ele foi protagonista até mesmo quando se afastou, como quando perdeu para Iris a oportunidade de ser candidato a governador, em 2010.

E, se consta que ficou contrariado com Iris por isso, o mesmo pode ser dito em relação a Marconi, que não lhe assegurou lugar como candidato a senador em 2002, como combinado com aval de Fernando Henrique Cardoso.

A candidata foi Lúcia Vânia, que lutou muito, e pesado, para ser a candidata. Coisas da vida. Nada que não possa ser transformado, nesta nova fase de pré-candidato a presidente, em ativo político valoroso nas mesas de conversação.

Muito se conhece Meirelles como homem de economia. E grande é o preconceito em relação a ele como político. Em 2002, porém, ele mostrou como é obstinado. Não tinha experiência eleitoral, apanhou no começo, mas acabou fazendo uma campanha moderna, organizada, especialmente no final. Teve votação histórica.

Depois, deu mostras de clara habilidade como articulador e calculado pragmatismo: eleito deputado federal pelo PSDB, virou homem forte do governo do PT de Lula, no Banco Central. Subestimá-lo ou imaginá-lo jogador raso por sua formação técnica, é ignorar a realidade de sua capacidade política.

Meirelles sempre disse sonhar em ser presidente da República. E sempre, também, mostrou que exerce na prática o que teoriza como homem de sucesso, em palestras: “Foco no resultado”.

Pode ser que não chegue lá. Mas que está a caminho, não há dúvida. Sempre esteve.

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