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Colunista

Vassil Oliveira

 

temer joesley batistaA entrevista de Joesley Batista à revista Época deste final de semana é chocante e não pode ser ignorada. As chantagens, os achaques, a disposição para o negócio da política, está tudo lá. Sem meias palavras. A campanha para desqualificar o conteúdo é estratégica para o presidente Michel Temer.

Atacando o empresário, o presidente tenta desviar a atenção para o que importa: a bandidagem é notória na frente e no verso, não é via de mão única. E vem de muito tempo, porque vem de longe a troca de favores entre os dois, em campanhas e fora delas. E se Joesley age de forma questionável agora, o que dizer de Temer, que reage à altura, com o poder federal nas mãos?

A entrevista choca não pelo ineditismo das revelações, porque o que está dito já era conhecido, ou estava subentendido, há tempos. Choca pela crueza da exposição do jogo da política. E não, não é só da política brasileira; é da política, sem fronteiras. Não somos exclusivos; somos no máximo singulares, talvez peculiares por nossa própria natureza.

Joesley se expõe, e ao fazer isso expõe as regras de um modus operandi maquiavélico no pior sentido. Não é inocente. Nem vítima. Passivo, nem pensar. Nem ele, nem Temer. E ambos estão longe de preocupados com o País. São protagonistas de uma engrenagem de corrupção que funciona nos bastidores como motor de trator sob a capa de uma Ferrari original.

“Tinha que tomar cuidado. Essa é a maior e mais perigosa organização criminosa deste país. Liderada pelo presidente”, diz Joesley em determinado momento, detalhando o processo de toma lá, dá cá que azeitava sua relação com o grupo de Eduardo Cunha e Michel Temer.

“Tinha que tomar cuidado” não é uma frase simples dita por um qualquer. É o testemunho de um homem temido, temendo outros. “Os fatos elencados demonstram que o senhor Joesley Batista é o bandido notório de maior sucesso na história brasileira”, rebateu, com coragem, o presidente em longa nota. Nos depoimentos de Marcelo Odebrecht, esse motor das relações incertas, desconfiadas, indecorosas, já ficara a descoberto. Enfim, está em carne viva.

Revoltar-se com A relevando B, é assumir torcida, é condenar os malfeitos de um para absolver os o outro, como se corrupção existisse sem reciprocidade. É negar a verdade das palavras de Joesley – independente de suas intenções – para abraçar as mentiras de um Temer acuado por seus atos, e não pelas ações alheias.

Joesley e Temer são a representação de tudo que os discursos de políticos a cidadãos nas ruas renegam, e ainda assim são o espelho da realidade de quem lê, que por sua vez não lê nada por acaso. Não haver novidade no que veio à tona, e na forma como veio, é o outro choque que tudo provoca. Ou não. A bandidagem é notória e reiterada desde tempos imemoriais.

Não adiante acabar com Joesley. Ou com Temer. Temos que acabar é com essa história. Sem mistificação.

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